Nina Simone e o dever de um artista
O dever de um artista
"O dever de um artista, a meu ver, é refletir sobre seu próprio tempo. Penso que isso seja verdade para pintores, escultores, poetas, músicos. Entendo que seja uma escolha de cada um, mas eu escolho pensar e falar sobre os momentos e situações em que me encontro. Para mim, é esse meu dever. E neste momento crucial de nossas vidas, quando tudo é tão desesperador, quando todos os dias são questão de sobrevivência, é impossível deixar de se envolver. Jovens, sejam eles negros ou brancos, sabem disso. Por isso estão tão envolvidos com política. Ou definimos o que queremos para esse país e ajudamos a moldá-lo ou isso não acontecerá. Então não acho que você tenha realmente uma escolha. Como alguém pode ser um artista e não falar do seu próprio tempo? Isso para mim define o que é ser um artista." - Nina Simone (em tradução ligeira minha).
Era para ser um Feliz 2023!
Queria que a primeira newsletter do ano começasse com um singelo “Feliz 2023!” Então, entre escrever essa encruza e enviá-la para você, os bolsonaristas no seu transe bovinofascista invadiram os prédios da Praça dos Três Poderes, destruíram o patrimônio nacional, danificaram obras de arte e peças históricas de valor inestimável, agrediram cavalos, jornalistas… Tudo com a conivência de certos políticos, parte das forças de segurança, pastores e algumas subcelebridades. Eu que nasci na ditadura, peguei nossa transição para uma democracia (que cometeu a burrice de anistiar militares golpistas, vale lembrar) e tive a sorte de estar no mercado de trabalho durante os governos Lula, aprendi a transitar entre o otimismo por um país melhor e o realismo que nos lembra do óbvio: a democracia brasileira foi erguida sobre ossadas de vítimas da ditadura e corpos de desaparecidos. Gente que lutava, cada um ao seu jeito, por um país melhor.
O renascimento do fascismo não é um evento isolado do Brasil. Acontece de maneira coordenada em várias partes do mundo (oi, EUA). Mas tê-lo aqui tão perto, no chat dos parentes, no escritório do trabalho, no nosso quintal, é de fato extenuante. Como pessoa muitas vezes me sinto cansado, derrotado. Como autor, como criatura lgbtqia+ que sobreviveu graças à arte, não baixo a cabeça jamais.
Vivemos num inception de golpe dentro de golpe dentro de golpe. E a cada um deles resistiremos. A gente luta é por quem vem depois de nós. Portanto, caro visitante da Encruza Criativa, desejo a você um Feliz 2023! Que estejamos juntos!
Poderia dizer mais, mas Nina Simone já disse melhor na década de 1960.
Salve Nina!
Mecenato
A partir desta edição você poderá se tornar um apoiador da Encruza Criativa. O que nada mais é do que uma forma de apoiar o trabalho deste que vos fala. “Ajude um autor vivo a pagar as contas”, diriam alguns colegas. Embora o Substack possua mecanismos de assinatura, escolhi usar o Apoia.se como plataforma de apoio por ser uma empresa brasileira com um histórico confiável e com bom atendimento ao cliente.
Por enquanto, estabeleci dois planos de apoio:
- o visitante por 5 reais/mês
- e o mecenas por 20 reais/mês.
Cada um tem suas particularidades nas recompensas, tudo devidamente descrito no Apoia.se.
Tomei essa decisão porque acredito na qualidade do material da Encruza, vejo a newsletter como produção autoral e porque sei que alguns de vocês gostariam de apoiar meu trabalho além dos livros.
A edição mensal continua com o acesso aberto e gratuito, como acontece atualmente. Para os apoiadores, como forma de agradecimento, teremos trechos de material inédito e bastidores de escrita. A depender do volume ($) de apoios, tenho planos de trazer ilustrações encomendadas a artistas independentes. Vamos ver.
Dito isso, não se acanhe! É só clicar, se cadastrar no Apoia-se e começar a apoiar.
Quero aproveitar o ensejo para agradecer a você que espera a noite cair e passeia pela Encruza Criativa, essa esquina onde literatura, arte e política se encontram. Alguns me acompanham desde que a newsletter se chamava Estranho Mundo de Eric e tinha o Ori, o gato de fumaça do meu livro Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues, como garoto propaganda. Outros aportaram recentemente, já sob o nome de Encruza Criativa e com uma pauta mais definida. Alguns me leem quietinhos, escondidos como ninjas atrás de pilastras, outros gostam de comentar e compartilhar entre amigos e pelas redes sociais. Seja qual for o seu perfil, obrigado por tornar esse espaço relevante.
O Futuro
Falando em produção autoral, é hora de voltar a dar vida a personagens, criar mundos ficcionais, honrar essa longa tradição humana de ser um criador de histórias. Chega de férias! Uma das minhas metas de 2023 é terminar o ano com um novo romance pronto, na mão de agente e, se pá, já na mesa da editora. Em paralelo venho escrevendo contos na mesma ambientação. Assim, se o romance empacar por qualquer motivo, volto para eles para me manter produtivo criativo. Estou bastante confiante.
Foi bom tirar um descanso desde o Ninguém Nasce Herói, mas sabe como é o comichão de escritor. No fim das contas, são as histórias que movem a gente.

Ah! Boatos de que vem um podcast literário por aí. Se os astros se alinharem, a grana aparecer e Maré, Luminar do tempo e dos afogados, permitir. Mas disso eu falo num próximo momento.
Um abraço,
até a próxima,
a gente se lê!
“A expressão "bolsonaristas radicais", largamente usada por setores da imprensa hoje, pressupõe a existência de um "bolsonarismo moderado". Não existe. Não há fascismo moderado. O fascismo é sempre radical em sua busca por destruição, eliminação da alteridade e morte.” - Luiz Antônio Simas.




Oba, mais um escritor no apoia.se! Gosto muito da plataforma, uso há mais de um ano e tenho tido uma boa experiência. :) Espero que curta!
Boa sorte nos projetos de 2023. Vai ser massa!